Liderança de alta performance

Por Fabio Saba

O que incentiva um time que está sendo derrotado a ganhar de virada, como tantas vezes ocorre no futebol e em outros esportes coletivos? O que anima tropas a lutarem contra exércitos muito maiores e melhor aparelhados e não desistirem, mesmo quando a batalha está inevitavelmente perdida, como ilustra o filme O Último Samurai? O que encoraja homens a enfrentarem de mãos vazias e cabeça erguida um pelotão armado, como aconteceu na Índia no tempo de Gandhi?

A resposta para todas essas perguntas é uma só: liderança.

O líder estimula as pessoas a trabalharem unidas por um objetivo comum. Motivadas, porque sentem-se parte do processo, elas dão o melhor de si e conseguem resultados muitas vezes excepcionais.

Assim como um grande maestro, o líder direciona o potencial de cada um em benefício do todo, coloca as pessoas certas nos lugares certos, tem sensibilidade para harmonizar os talentos de modo que os defeitos dos membros da orquestra – no caso, os funcionários – sejam encobertos por suas qualidades. O líder sabe, por exemplo, que alguns professores adoram dar aulas na parte da manhã, enquanto outros têm um rendimento superior à noite e, assim, organiza o horário de modo que cada um atue no seu melhor momento.

Além de conhecimento técnico, o gestor precisa se posicionar como um líder, com visão, desejo de ultrapassar limites e disposição para transformar seu staff em uma equipe sintonizada e incansável atrás do objetivo comum.

O líder é o principal responsável pela satisfação do cliente. É ele quem garante a qualidade do atendimento. Se o aluno reclama de um funcionário, de uma aula, de um problema estrutural ou de um equipamento, o gestor deve saber que está reclamando da liderança e cabe a ele manter tudo funcionando muito bem.

Atento a todos os detalhes, o líder valoriza atitudes suas e dos outros.

Ele tem a consciência de que as grandes mudanças estruturais acontecem a partir das pequenas mudanças comportamentais.

O líder preocupa-se em ser exemplo positivo para as pessoas. Gestores que não colocam a “mão na massa” só mandam e cobram resultados, fazem questão de ver o produto final, sem acompanhar o processo. Sem comprometimento, correm o risco de não gerar compromisso com a equipe.

8 pré-requisitos para ser um bom líder:

Os grandes líderes apresentam oito características fundamentais:

  1. Entusiasmo: o líder é entusiasmado por uma causa, está sempre envolvido pelo desejo de concretizar seus projetos. Seu entusiasmo é cativante, vide o exemplo de Gandhi, Martin Luther King e do Padre Marcelo Rossi. Eles motivam as pessoas para que produzam em nome de uma ideia. Seus sonhos não envelhecem. Nem todos são extrovertidos, mas nem por isso são menos apaixonados por suas metas e objetivos.
  2. Integridade: essencial em todos os relacionamentos, a integridade desperta a confiança das pessoas. Um ser humano íntegro é digno de crédito, tem relação com a sinceridade e a bondade, outros valores importantes para gerar comprometimento.
  3. Firmeza: bons líderes são obstinados e persistentes. Sabem fazer escolhas guiados pelo interesse da maioria. São respeitados, embora não sejam obrigatoriamente populares. O líder é diferente do ídolo: este último não se arrisca a escolher o que desagrade uma porcentagem dos seus seguidores. O líder toma decisões corajosas, ainda que uma parcela não fique satisfeita, e ainda assim merece o respeito de todos. Exigente, o líder tem padrões de qualidade muito elevados.
  4. Imparcialidade: os líderes tratam os indivíduos de maneiras diferentes, porém de forma igualitária, sem favoritos. Suas recompensas ou penalidades baseiam-se no rendimento pessoal. Cada caso é analisado dentro do seu contexto.
  5. Zelo: Verdadeiros líderes são sensíveis. A insensibilidade não constrói boas lideranças. Seu projeto envolve sua mente e coração. Gostam do que fazem e se importam com as pessoas, o que faz a diferença.
  6. Humildade: o líder não é arrogante ou egocêntrico. Ele escuta as outras pessoas e considera suas colocações.
  7. Confiança: acreditar na sua capacidade de vencer é essencial, mas convém lembrar que existe uma linha tênue que separa a superconfiança da arrogância. O líder deve ter uma confiança humilde.
  8. Conhecimento: importantíssimo para um líder! Ele deve entender não apenas de exercícios físicos, precisa conhecer bem seu negócio, as ações do concorrente e saber interpretar as tendências do mercado para estar um passo à frente. O conhecimento vai muito além das informações técnicas, inclui uma visão macro.

O proprietário da academia deve se esforçar para desenvolver essas oito habilidades, sobretudo quando não tem condições financeiras para contratar um administrador para tomar conta do seu negócio e precisa desempenhar o papel de gestor.

Vale a pena acrescentar que também é necessário identificar essas características nos professores, pois eles estarão em contato direto, e muitas vezes diário, com seus clientes. O carisma de um líder está na combinação de todas essas características, somado à vontade de acertar e, eventualmente, uma boa dose de simpatia.

Um belo exemplo vem de Bernardinho, ex-técnico da Seleção Brasileira Masculina de Voleibol, que coleciona vitórias. O auge foi a conquista da Medalha de Ouro nas Olimpíadas da Grécia, em 2004. Em uma entrevista à jornalista Mônica Waldvogel, ele contou que depois de a equipe vencer a Liga Mundial, sabia que as cobranças seriam maiores, então, arrumou uma solução criativa para exigir maior rendimento dos jogadores: marcou o início do treinamento para 1 hora mais cedo, às 8h da manhã.

A seleção ganhou a Copa do Mundo de Vôlei. No mesmo raciocínio, antecipou o treino para às 7h.  Essa atitude mexeu com o inconsciente dos jogadores. Na cultura brasileira, quem levanta cedo é quem precisa trabalhar mais. Já diz o ditado: “Deus ajuda quem cedo madruga”. Fora isso, a pessoa tende a sair menos para jantar, porque precisa dormir bem para acordar disposto, daí não tem tanto problema de ganhar peso. Bernardinho aumentou a responsabilidade da equipe mexendo apenas no horário. Uma saída inteligente que revela humildade e profundo conhecimento do seu negócio.

Estilos de atuação de um líder:

Infelizmente, nem sempre os gestores de academias e centros esportivos possuem um bom conhecimento do seu negócio. Muitas vezes, a função é exercida por professores de Educação Física sem experiência administrativa, que aprendem na prática e na raça, muitas vezes cometendo erros. A necessidade de se capacitar tem sido cada vez mais percebida, tanto é que os primeiros cursos de gestão nessa área vêm tendo uma procura acentuada.

O líder precisa ter um objetivo claro e identificar os caminhos que o levarão até lá. A partir dessas duas variáveis, o sonho (onde chegar) e a travessia (caminho a tomar), o consultor de estratégia empresarial César identifica cinco estilos de atuação pessoal, apresentado no livro O Momento da Sua Virada (Ed. Gente). No nosso caso, ele pode servir de ferramenta para o gestor avaliar a forma como gerencia seu negócio.

  1. Acomodado: não sabe aonde quer chegar, nem que caminho precisa tomar. Não sonha, nem se prepara, faz a coisa errada e as faz de maneira errada. Resultado: fica parado, anda devagar ou, pior, caminha para trás. Quando resolve virar o jogo, a tendência é se dar mal porque faz uso da esperteza, tenta truques que não funcionam, escolhe mal o sócio ou investe no negócio errado, segue a opinião dos outros, entra numa fria e assim encontra justificativa para se acomodar ainda mais.
  2. Planejador sem foco: embora seja competente na travessia, não tem um objetivo claro. Os meios são mais importantes que o resultado, valoriza o processo, os rituais. Operacional e burocrata, repete sempre o que deu certo; às vezes, chega a ser controlador e obsessivo. É eficiente, preparado, mas incapaz de ousadias. Vai para onde sopra o vento e espera que a sorte bata a sua porta. E, como nada disso acontece, sente-se um injustiçado.
  3. Realizador afobado: tem um objetivo claro, mas se atrapalha na travessia: atropela tudo e todos, atira em todas as direções, é impaciente e ansioso.  Sonha com várias coisas ao mesmo tempo e não hierarquiza seus planos.  Idealista, porém desorganizado, não planeja detalhes. Escolhe o sócio ou o parceiro errado, não faz contabilidade e se endivida, não forma equipes, corre riscos desnecessários, que podem comprometer seu sonho.
  4. Realizador moderado: tem os sonhos mais ou menos definidos e é mais ou menos competente na travessia. Responsável, cauteloso, consistente, caminha devagar e sempre, dá passos seguros. É do tipo incremental.  Todo dia faz tudo sempre igual e de forma previsível. Um exemplo é a turma do “em time que está ganhando não se mexe”.
  5. Realizador pleno: conhece seu objetivo e é competente na travessia. Tem a cabeça nas nuvens e os pés no chão, anda para a frente, busca um novo patamar. Não apenas sabe aonde quer chegar, como também se prepara para alcançar o porto, o que aumenta suas possibilidades de acerto. Eficiente, faz a coisa certa e faz as coisas de maneira certa.  Artilheiro e impetuoso, joga rápido e faz gol.

A sugestão de César Souza é que as pessoas não só identifiquem seu estilo, mas reflitam sobre o que poderiam desenvolver para se transformarem em realizadores plenos.

O primeiro passo pode ser encarar o negócio com mais profissionalismo. Estamos evoluindo em nosso mercado, mas ainda falta aos gestores de academias, sobretudo, planejamento. Quando montam as empresas, não medem detalhadamente suas potencialidades de negócios. Nem sempre há um estudo minucioso da viabilidade econômica e das necessidades da comunidade, o que de cara já compromete as suas chances de sucesso.

Quem corre para chegar em segundo, chega em oitavo, já que há outros dez querendo chegar em primeiro.

Ações primordiais para se tornar um líder:

Existem pessoas com uma liderança natural que produz iniciativas fantásticas! Têm uma inquietação constante, sua cabeça parece andar em alta velocidade. É como se estivessem sempre um passo adiante, mas esse talento nato nem sempre é suficiente para garantir o sucesso dos seus empreendimentos.

Há quem se perca pelo caminho por falta de organização. Essa é uma das competências técnicas que podem ser desenvolvidas para que o líder natural se torne também um líder pleno. O mais importante é que ele tenha disposição para aprender.

Algumas ações têm importância vital para o gerenciamento de um negócio. A seguir, relaciono funções macro do líder que devem integrar, obrigatoriamente, um roteiro de trabalho:

  • Definição da tarefa: antes de estabelecer para onde a academia vai, é necessário estudá-la. Pesquisar o seu histórico: o que aconteceu nos últimos meses e anos? Obter uma radiografia do momento atual: qual é a condição da empresa, que momento está vivendo? É interessante situar essa análise temporal no mercado. Quais são as grandes tendências? Como atua a concorrência?Aliás, não se pode deixar de fazer uma análise pormenorizada da concorrência. Por acaso o gestor sabe o que a academia do outro lado da rua oferece em termos de equipamentos, quantidade, qualidade, variedade de serviços? Quem está bem informado argumenta com mais precisão na hora de vender um plano.E, finalmente, levantar as necessidades da comunidade. Na ausência desses dados, corre-se o risco de promover serviços que não estão adaptados à cultura local. Esse descompasso prejudica – e muito! – o negócio. Estudos apontam que os programas de ginástica têm que ser cada vez mais individualizados, isto é, levar em conta características biológicas, psicológicas e sociais do público atendido.

    De posse dessas informações, o gestor pode traçar seu objetivo, estabelecer as metas futuras e acertar a direção. Vale a pena lembrar aquela frase bem conhecida: “não importa a velocidade com que você anda, importa a direção tomada”.

  • Planejamento: ponto alto da organização, abrange as estratégias que serão adotadas para competir no mercado e as ações que serão utilizadas para atingir as metas propostas, além de calcular de quantas pessoas o gestor vai precisar para tocar o negócio e como a equipe deverá trabalhar. O planejamento também deve prever o tempo necessário para executar as ações. Ações bem planejadas diminuem a necessidade de ações de urgência.
  • Instrução: a equipe deve ser preparada para atender bem ao cliente. É papel do gestor oferecer todas as ferramentas e informações necessárias para que os funcionários desempenhem bem suas funções. Quando alguém da equipe comete um erro de atendimento ou de conteúdo técnico, a responsabilidade é da liderança. As ações do gestor são sempre pró-ativas. É fundamental que ele pergunte sempre para a equipe se entendeu, se tem dúvidas, e esteja ciente de que não deve jamais cobrar de um funcionário algo que não ensinou. É como na escola: só pode cair na prova a matéria que o professor já explicou antes.
  • Controle: o líder sempre cobra. Ele precisa controlar e cobrar sua equipe para ter certeza de que ela está seguindo as diretrizes corretas, conforme o planejamento e a definição da tarefa. O controle também possibilita verificar as dificuldades encontradas no caminho e tomar as medidas adequadas para corrigir o rumo. Além disso, prevê um acompanhamento rigoroso dos custos. O grande erro de alguns gestores é vacilar na hora da cobrança: “se eu cobrar demais, meu funcionário vai desanimar”, imaginam. Na verdade, o ser humano precisa ser cobrado ou então se acomoda, mas cobrar não significa ser rude. O gestor pode cobrar de maneira gentil e carinhosa.
  • Avaliação: periodicamente, os rumos têm que ser revistos. O líder precisa checar se todas as etapas do planejamento foram ou estão sendo cumpridas e estabelecer novas metas, pois a concorrência muda, o mercado muda e as necessidades do cliente, também. A população está cada vez mais consciente da importância da atividade física e aberta a novidades nessa área. Cabe ao gestor criar alternativas capazes de abarcar essas transformações. A avaliação vai retroalimentar todo o processo.

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